🌄 Maribel: A Menina que Encantou Minha Alma em Ollantaytambo
- Letícia Giassetti Canal
- 17 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Existem encontros que o tempo não apaga. Existem almas que se reconhecem mesmo em silêncio. E existem momentos tão sutis quanto eternos — como o que vivi com Maribel, uma menina dos Andes, em um dos lugares mais sagrados do Vale Sagrado: Ollantaytambo.
Era mais um dia de jornada com meu grupo. Entrei no sítio arqueológico e, logo nos primeiros patamares da subida, compartilhei com todos a história ancestral daquele lugar — suas pedras vivas, sua energia ancestral, sua força silenciosa. Dei a eles uma missão terapêutica: subirem até o topo, cada um com sua própria intenção, seu próprio processo.
Eu, por minha vez, já conhecendo cada degrau daquelas escadarias em tantas outras viagens, decidi, como de costume, poupar meus joelhos. Prefiro caminhar pelas partes baixas da antiga fortaleza, entre muros que ainda sussurram histórias, ao som dos trens que chegam e partem para Machu Picchu, enquanto as montanhas me envolvem em silêncio e contemplação.
Depois de alguns registros fotográficos para o meu álbum pessoal, saí do sítio e fui à feira de artesanato, como faço todo ano. Reencontrei velhos amigos, visitei a tenda do meu querido amigo Kelvin — a Tenda do Xamã, como gosto de chamar — onde comprei objetos de poder carregados de energia e tradição. E então, sentei-me no banco em frente à saída do sítio, esperando o grupo terminar sua vivência lá em cima.
Foi nesse momento, entre mensagens no celular e atualizações nas redes sociais, que percebi um par de olhos me contemplando — como se eu fosse uma divindade. Virei o rosto... e ali estava ela. Uma menina linda, vestida com trajes típicos da montanha, com um sorriso de anjo que invadiu meu peito como um raio de luz. Era Maribel.
Conversamos. Descobri seu nome, sua idade, se estava sozinha. Passamos por toda a feira de mãos dadas, em um silêncio cheio de significado. Tiramos fotos, rimos. Algumas pessoas, infelizmente, nos julgaram. Disseram que ela tinha família, que eu não poderia “levar” a menina. Como se carinho não pudesse ser puro. Como se toda relação entre adultos e crianças tivesse que ser questionada.
Ignorando os julgamentos, fui com ela até sua avó, que tecia sentada no chão. Pedi permissão para levá-la para comer algo. A avó sorriu e disse sim, com o coração aberto.
Levei Maribel a uma das lanchonetes ao redor da praça. Creio que ela nunca havia estado em um restaurante antes. Pedi que escolhesse o que quisesse. Ela escolheu uma torta de banana, recém-saída do forno, e um Gatorade de laranja. Um pedido simples, mas com gosto de festa. Oferecer isso a ela foi, para mim, um presente muito maior do que qualquer coisa material.
E então veio o pedido mais profundo de todos:— "Meu sonho é entrar naquele lugar... no sítio. Mas nunca me deixam entrar. Dizem que não posso, porque sou pobre."
Sim. Mesmo sendo peruana — e mesmo que o acesso para peruanos seja gratuito — ela nunca havia sido autorizada a entrar. O preconceito e a exclusão social ainda ferem como flechas silenciosas. Mas ali, de mãos dadas, eu entrei com ela. Eu, uma brasileira apaixonada pelo Peru, tive o privilégio de apresentar aquele espaço sagrado a uma alma que nasceu ali, mas que sempre foi mantida do lado de fora.
Enquanto caminhávamos por entre as pedras milenares, eu não via só Maribel. Eu via a minha própria criança interior. Frágil. Com medo. Querendo colo. E ali, naquele instante mágico, foi como se eu a acolhesse também. Em silêncio. Com amor.
Essa história é sobre isso. Sobre reconhecer a criança que ainda vive dentro de nós — com todas as nossas carências, medos e sonhos — e oferecer a ela o que ninguém mais pode: cuidado, escuta, presença.
Talvez eu nunca mais veja Maribel. Mas sei que ela nunca se esquecerá de mim. E eu, tampouco esquecerei dela.
🌟 Faça o bem. Deixe pegadas de amor por onde passar. Não porque alguém está olhando, mas porque é isso que cura o mundo — e também a nós mesmos.















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